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Intervenção precoce evita que bebês de risco tornem-se pacientes graves com comprometimento motor

Doutora em Saúde da Criança explica que o cérebro de uma criança que tem alteração é como um trânsito engarrafado. É preciso criar desvios para conseguir sair daquele engarrafamento e encontrar outros caminhos para chegar onde se quer

A intervenção precoce é apontada atualmente como estratégia e ação fundamental para evitar que bebês de risco tornem-se pacientes graves do ponto de vista motor, proporcionando a essas pessoas o máximo de qualidade em movimentos funcionais. A Assessoria de Comunicação (Ascom) da Feapaes-ES conversou com Francine Hartmann sobre a questão. Ela é doutora em Saúde da Criança e tem formação no Conceito Neuro-evolutivo Bobath Baby com ampla experiência no atendimento fisioterapêutico em Neuropediatria.

Durante a entrevista foram abordadas questões como multidisplinalidade no atendimento, a importância da compreensão de que as deformidades se instalam e não nascem com a criança que tem alguma lesão cerebral, e a aliança com os pais para que a criança encontre os caminhos dentro do seu cérebro para alcançar o desenvolvimento motor.

Francine Hartmann esteve em Vitória no dia 15 de maio para ministrar o curso \"A Intervenção Precoce e a Pessoa com Deficiência\", promovido pela Federação.

Confira a entrevista:

Ascom Feapaes-ES - Qual a importância da estimulação precoce? Quanto mais cedo melhor? Por que?

Francine Hartmann - Quando a gente fala em intervenção precoce a gente fala desde a prevenção, desde antes da gestação, para uma comunidade saber o que pode acontecer durante uma gestação, uma gestação que pode não ser planejada ou uma gestação que não tem um acompanhamento pré-natal, todas as coisas que podem acontecer com a gestante, e que podem levá-la a ter um bebê de risco. Risco não quer dizer que vai ser uma criança com deficiência, mas que pode ter um risco de ter.

E quando a gente fala em bebê de risco, a gente fala que esse bebê tem que ser acompanhado, isso que a gente conversou bastante. E é aí que a gente começa a intervir precocemente, acompanhando, avaliando essa criança para ver se ele está tendo uma alteração de desenvolvimento ou não.

A gente geralmente avalia por escalas de avaliação. Se ele começa a apresentar alteração, a gente encaminha ele para um programa de estimulação onde ele vai receber atendimento de Fisioterapia, Terapia Ocupacional, de Psicologia e outros. A família vai estar bem orientada. Então, quanto antes a gente acompanhar esse bebê, que é de risco, e  diagnosticar atrasos em qualquer área - pode  ser cognitiva, motora, emocional - a gente pode está diagnosticando algum atraso e a gente vai intervir antes. com isso inibimos que esse paciente se torne um paciente grave, um cadeirante, por exemplo. A gente não quer que as crianças virem cadeirantes. Queremos dar o máximo de qualidade e de funcionalidade, movimento funcional.

Costumamos dizer que nenhum paciente nasce com deformidades, a não ser aqueles que tenham alterações congênitas, que aí é uma outra gama de pacientes. Eles não nascem com deformidades instaladas por lesão cerebral. Então, essas deformidades vão acontecendo ao longo da vida. Então, intervir precocemente é não deixar o paciente ficar grave. Intervir antes que as coisas aconteçam. Prevenir as deformidades e as más formações.

Sempre se fala muito em equipe multidisciplinar para a realização desse trabalho. Quais são esses profissionais e o que eles precisam ter em mente para essa intervenção precoce?

É super importante. A gente não consegue falar em intervenção precoce sem falar em multiprofissional. Multiprofissional é: médico, fisioterapeuta, terapeuta  ocupacional, fonoaudiólogo, psicopedagogo, e principalmente o psicólogo. As vezes entra o nutricionista, entre profissionais de outras áreas que a gente pode agregar.

É super importante que haja uma troca de conhecimento e que haja discussão dos casos dos pacientes. Por quê? Porque, por exemplo, eu como fisioterapeuta posso dar as condições motoras para o meu paciente para que ele consiga tudo para estar caminhando. Mas se a criança não olha para um brinquedo e não tem cognição que lhe proporcione a intenção de buscar um brinquedo, mesmo que ela tenha cognição motora para caminhar, não vai caminhar. Entende? Então, uma coisa está interligada com a outra.

A gente precisa ter junto com o desenvolvimento motor um desenvolvimento cognitivo e organização emocional e sensorial. A gente fala muito de integração sensorial, que é quando uma criança consegue se organizar no espaço, em um ambiente, que não tenham coisas que a desestabilizem e desorganizem. Então, trabalhar com uma equipe multiprofissional é isso. É conseguir promover um ambiente propício para que a criança se desenvolva de maneira mais organizada.

E como você vê o trabalho feito pelas instituições como as Apaes?

Na verdade eu não tenho muita experiência com instituições. Eu acho que às vezes é visto como um mal trabalho e eu acho que não é um mal trabalho. Acho que eles trabalham muito bem. Acho que os profissionais buscam, são qualificados. O problema maior é que há muita demanda para pouca vaga. Quando a gente fala em intervenção, a gente pensa também na  frequência. Quanto mais a criança faz, mais rápido os resultados aparecem. Se pensarmos em uma carga horária de uma semana e a criança fizer uma hora de terapia, isso é muito pouco diante do resto do dia em que ela vive de maneira desorganizada.

Por isso é importante, também, que as Apaes façam trabalho com os pais orientando essas questões de desenvolvimento. Explicando o que eles podem fazer em casa para ajudar. O profissional pode ajudar os pais a darem continuidade ao trabalho, orientando sobre o mobiliário adequado para que a criança fique bem posicionada, para que seja estimulada de maneira adequada. Acho que cada vez mais as Apaes estão preparadas para esse contexto de multidisciplinaridade, com mais profissionais envolvidos.

Ser aliado dos pais é fundamental?

É fundamental, com certeza. E os pais dos profissionais. Receber essas informações, digerir essas informações que nem sempre são o que a gente gostaria de escutar. Temos que tentar ajudar e nunca desistir. Tentar, tentar. Repetir, pois a criança vai aprender. Eu digo que o cérebro de uma criança que tem alteração é um trânsito engarrafado. A gente tem que criar desvios para conseguir sair daquele engarrafamento. Arrumar outros caminhos para conseguir chegar onde quer. Então, a gente vai achar outros caminhos para conseguir chegar no objetivo final, e o importante é não desistir.


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